Domingo, Outubro 11, 2009

nasce cresce a flora (parte I)

Em cada dia há um segundo que se manifesta tranquilo num castelo de células, o quotidiano do leite em crescimento. No nascimento da flora sentimental, um pulsão animal guarda o destino que recebe em mandamento difícil do coração. Como uma classificação preliminar da alma que se pretende acrescentar ao dorso rebuliço do sol, todos temos o sémen da clorofila nas palavras do gelo. Somos frágeis como as flores que o vento grita, uma relva crepuscular de crianças é a ebulição carnívora da nossa alegria.

No suor do fogo nascem emergências, benignas e plásticas, algas transparentes de sangue que transfiguram os vidros da vida. Uma lava simples substitui-se à memória branca da tranquilidade multicolor. As estações do tempo tentacular preenchem inicialmente a flecha inocente das sementes, e alimentamo-nos do manto níquel de fome nos olhos coloridos.

Caminhando na estrada simples vamos sendo o sexo dos sentimentos, a tranquila temperatura transmitida pelos nossos pais amnióticos. Entretanto, há uma segurança de fumaça fugidia que avistamos nas nuvens cinzentas das montanhas, uma chuva que se aproxima em flocos de palavras surdas, visualizamos o não sentido, visualizamos um hidrato de carbono mecânico da nossa inteligência húmida. Sentimos que podemos futuramente sentar o corpo numa cadeira de pelo em fúria e apagar as frases entretanto menos escritas, assumindo mais um pouco de feridas descritas na inteligência explosiva.

Sábado, Agosto 29, 2009

Espaço com Quadro

sentei-me
na ponta da fila de cadeiras
estava o centro do espaço quadrado
uma calma universal
dos oceanos
caminhava no meio
do ruído das meias palavras

encontrei-me
com o teu perfume de praia
estavas
tu eu e tudo
na palma dessa música
um quadro vasto
em quinze minutos
de um espaço quadrado

quero voltar
ao abraço desta cor sentada
e
veloz
levantei-me
na procura do som
da tua pele com ondas

aqui tudo é belo
aqui tudo tem a cor verde
aqui tudo vem som

afinal

encontrei-me
no som da relva
no vento nas tuas vertigens

aqui

Sexta-feira, Maio 29, 2009

vento de vertigens

copo
a tua boca
cinco estrelas (luminosas)
tal como te tinha dito

cabelos
desde algum tempo
teias de vento
corpo
de pedras vertiginosas
cinco telas de absinto
abertas
velas
sobre o teu
corpo de estrelas
vinco de seda
alertas
telas luminosas
vento de
telas vertigens

Sexta-feira, Agosto 03, 2007

cadela dos sentidos

sim
quero a tua viagem
quase
sem nuvens de palavras
brancas trespassadas perto
por aqui
no chão do silêncio
o fim da distância de um corredor
metemos no bolso o segredo
e vamos
numa qualquer margem marítima
a cadela dos sentidos a puta não se cala

é assim que passo o dia
quando as folhas estão escritas
as letras bolas de algodão
umas almofadas de alegria
quando o teu peito entra no meu braço
quando o teu prato abre o meu laço de sangue
branco

Terça-feira, Janeiro 17, 2006

o sangue das palavras puras

a criança corre
entre a
trança das cadeiras
a espinha de aço
na esplanada em linha
brinca e pinta o movimento
come imune a inocência
enquanto o sangue raw
estanca nas palavras puras
e lava o fumo nobre
de um pensamento gelado

e o branco momento
num inerte pranto
invisível ao líquido
inexistente de um corpo
que se desvaneia
é um sonho pavio
a vida
permanece
sobre o vazio
de uma laranja quente
que nasce sobre o pantanal
o fumegar doce
lembra-me um traço
de um perfil de alga
carregado e solto
um género de cristal
imundo de
funerais de sal
como um cesto de
sons surdos

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Hoje encontrei nas minhas deambulações pelo computador uma curiosidade, um ficheiro word com o nome deste blog, o sangue das palavras puras. Este ficheiro continha o poema agora publicado electronicamente, que foi escrito há seis anos, em 6 de Setembro de 2000, acabou por vir a dar o nome ao blog, que foi criado cerca de três anos depois. Resolvi publicar o poema...

Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

tigre beje

uma ganga azul
sobre a mesa dos mapas

um caminho sobre o sol dos cabelos
caídos e levemente despenteados

delgada viagem fúria
contente contenda
uma deformação de ferocidade
aproxima o desmaio do amor
em vidro partido sobre
a tua imagem timbre
limpa e necessária

uma alga simples
e vária contempla
a emergência do fluxo
um vento abre rápido sobre
a tua imagem temperada

aproxima a ganga
sobre a mesa dos mapas

onde perguntamos o rio livre
para
o destino do desejo
cada vez mais próximo
de ti tigre beje

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

gume lento das rosas

tinha a saudade
como um gume lento das rosas
entre o que me separa do teu corpo
apenas o vento em olhar húmido
a pode acalmar numa cama de lama
em velocidades invernosas
sem resposta ao vento simples
do risco limpo
a saudade
deixa o caminho
com pedras soltas
e desconhecidas
alegrias